Livro I · Sorn
“Se alguém decide que você é dele, a fuga só faz de você um alvo em movimento. O único esconderijo seguro é exatamente no centro do peito de quem atira.”
Coloquei a câmera na mesa, bem entre os nossos pratos.
Era uma coisinha minúscula, ridiculamente pequena. Um botão preto do tamanho da minha unha, que rolou um pouco sobre a toalha branca antes de parar na base da taça de vinho dele, com a lente apontada para cima.
Bangkok queimava trinta e oito andares abaixo. O calor não dava trégua nem ali em cima; grudava na nuca, pesava na gola da camisa, embaçava o vidro das taças. Aço escuro, luz de velas baixas, uma cidade inteira derretendo em dourado e vermelho. Aquele terraço foi desenhado para causar vertigem e, até aquele instante, eu estava me deixando levar.
Krit baixou os olhos para a câmera.
E foi isso. Não fez perguntas. Não houve sobressalto. Nenhuma daquelas expressões de choque que alguém inocente faria ao ver uma escuta brotar no meio do jantar. Ele olhou para o aparelho com a mesma naturalidade de quem encontra uma chave que achava ter perdido.
— Foi você — eu disse.
Apoiou o talher na borda do prato. Sem pressa, sem ruído. Houve uma pausa curta, breve como um suspiro, antes de ele escolher as palavras.
— Você a encontrou.
— Nas flores.
— Eu sei onde ela estava.
Eu deveria ter sentido medo naquele momento. A calma dele não era fingida, e homens que não sentem necessidade de mentir costumam ter motivos muito sólidos para isso. Mas o que subiu pela minha garganta não foi medo.
Foi a lembrança da noite anterior.
Twan tinha resolvido trocar a água do vaso. Puxou o buquê inteiro, e aquela bolinha preta caiu na pia com um estalo metálico de moeda. Ele riu primeiro, sem entender. Depois, o sorriso sumiu. Ficou lá, plantado no meio da cozinha, segurando a câmera pelas pontas dos dedos como se fosse um inseto peçonhento, me perguntando há quanto tempo aquilo estava ali.
Eu não soube o que responder.
E, no meu silêncio, a ficha caiu: a câmera não tinha filmado só a minha rotina. Tinha filmado o Twan. Ele tomando café de cueca. Chorando no telefone com a mãe. Dormindo no sofá, de luz acesa, por causa daquele medo bobo de escuro que ele tem desde os nove anos.
Me inclinei sobre a mesa.
— Presta bem atenção. Quem entrou naquele site fui eu. Quem topou esse jogo de gato e rato, sabendo perfeitamente que era um jogo, fui eu. O Twan só divide o apartamento comigo.
O vento fez a chama da vela tremer. Krit continuou imóvel.
— Ele não escolheu nada disso. Não assinou nada, não pediu nada. E você botou um olho dentro da casa dele. — Bati o dedo na mesa, ao lado da câmera. — Você nunca mais vai envolver uma pessoa da minha vida nessa dinâmica doentia. Nunca mais.
Não saiu como um pedido. Saiu como um aviso final.
E foi aí que a máscara dele trincou. Quase nada, imperceptível para a maioria, mas eu vi. O maxilar dele travou. O olhar focou em mim um segundo a mais do que a boa educação exigia.
Eu tinha subido até ali preparado para bater de frente com um homem que sabia demais sobre mim. Ele, pelo visto, esperava outro tipo de companhia: alguém curioso, cauteloso, fácil de impressionar com uma noite luxuosa.
Nenhum de nós dois encontrou o que esperava.
— Entendeu? — insisti.
— Perfeitamente.
— Ótimo, o que você entendeu?
O canto da boca dele deu um leve repuxo.
— O Twan está fora do nosso jogo.
Nosso.
Eu deveria ter comemorado o recuo dele. Em vez disso, percebi que a rachadura na postura de Krit tinha dado espaço para outra coisa completamente diferente. Ele me olhava com uma atenção cortante. Não era a irritação de quem foi contrariado, nem o cálculo de quem reorganiza um plano.
Era fome.
A química daquilo atravessou a mesa e me acertou em cheio — na nuca, no estômago, na batida descompassada do meu próprio coração. Senti o ar do terraço ficar mais espesso, mais quente, insuportável.
Levantei depressa, antes que o silêncio deixasse óbvio o que eu estava sentindo.
— Preciso de ar.
Uma desculpa esfarrapada num terraço a céu aberto, mas ele teve a decência de não apontar isso.
Fui até o parapeito de vidro e segurei o corrimão de aço, ainda morno do dia inteiro de sol. Lá embaixo, as luzes dos carros formavam rios vermelhos e dourados nas avenidas. O som de uma buzina subiu abafado, chegando tarde e fraco demais para pertencer àquela altura.
De costas para a mesa, tentei colocar a cabeça no lugar. Havia uma câmera na minha casa. Aquele cara conhecia a minha rotina melhor do que eu mesmo. Existia um contrato bizarro que eu aceitei por aí. E eu conhecia Krit Rattanakosin havia exatos trinta e quatro minutos.
A cadeira arrastou atrás de mim.
Não ouvi passos. Só senti o ar mudando de temperatura às minhas costas, calor somado a calor, e a certeza irritante de saber exatamente a que distância ele estava.
— Você me conhece há trinta e quatro minutos. — A voz soou rente ao meu ouvido. Baixa. Sem nenhuma pressa. — Eu conheço você há mil e noventa e cinco dias. Dezessete horas. E trinta e quatro minutos.
Meus dedos apertaram o aço. Tentei me virar.
Não precisei. Ele me virou.
O primeiro movimento foi brusco, quase brutal. O seguinte foi de uma lentidão deliberada: ele me fez dar dois passos para trás até minhas costas encontrarem o vidro e o corrimão. Se colocou entre as minhas pernas e parou. Uma das mãos agarrou minha cintura. A outra subiu pela minha nuca e embrenhou-se no meu cabelo — sem puxar, apenas sustentando e inclinando meu rosto para cima, me obrigando a olhar somente para ele.
De perto, a compostura dele tinha fendas que a mesa havia escondido. A respiração acelerada, curta demais para alguém tão calmo. O maxilar tenso. Os dedos que podiam apertar, mas se seguravam.
Minha cabeça deveria ter gerado um comando simples de sobrevivência: saia. Mas não formulou nada útil. O desejo me engoliu como uma névoa quente, apagando o alerta de perigo, mesmo sabendo que o perigo continuava ali. Eu não queria parar. Eu só pedia ao universo, em silêncio, qualquer desculpa esfarrapada que justificasse não parar.
Krit pareceu ler meus pensamentos.
— Eu esperei muito tempo por isso. Não me faça esperar mais.
Ele tirou a mão do meu cabelo. Acompanhei o movimento, esquecendo de respirar. A ponta do indicador dele tocou minha sobrancelha e desceu devagar, como quem decora um mapa pelo toque. Contornou o osso do olho com um cuidado que mãos daquele tamanho não deveriam ser capazes de ter. Seguiu a linha do nariz, acariciou a bochecha.
Não havia triunfo no olhar dele. Havia adoração. Uma devoção tão nua que me deixou mais exposto do que a lente daquela câmera.
Meu corpo inteiro fervia por onde o dedo dele passava.
Ele chegou, por fim, à minha boca. Desenhou o arco de cima. Depois o de baixo. E ficou ali, hesitando, como um homem diante de algo que sonhou por tanto tempo que agora teme quebrar ao tocar.
Ele queria me beijar. O corpo dele gritava isso — a tensão travada no braço, o aperto firme na minha cintura, a respiração se desfazendo entre nós dois.
Mas ele não me beijou.
Puxou o ar fundo, fechou os olhos e apenas encostou o nariz no meu.
A ternura inesperada daquele gesto foi mais do que eu consegui suportar.
Ele tinha me caçado por mil e noventa e cinco dias. Tinha entrado na minha casa, escolhido as flores, o cardápio, calculado a altura, a temperatura, a hora perfeita. Tinha planejado cada segundo daquela noite de forma impecável.
Mas não podia planejar o que eu iria fazer.
Afastei o rosto só o suficiente para ver a surpresa nascer nos olhos dele. Entrelacei os braços no seu pescoço.
E o puxei de vez.
O beijo não teve nada de delicado, e eu não queria que tivesse. A boca dele era quente. A mão na minha cintura apertou num reflexo inconsciente, dedos achando osso através do tecido, o calor passando pela camisa direto para a pele. Ele tinha cheiro de madeira escura e de um desejo contido por tempo demais. Em vez de recuar, eu fui de encontro a ele, subi a mão até sua nuca, fechando os dedos no cabelo curto.
Foi quando ele desmontou.
Um som baixo, rouco, escapou da garganta dele. Não foi calculado. Apenas escapou.
Krit me prensou contra o corrimão com o peso inteiro do corpo. O aço morno cravando na minha lombar e ele, mais quente que o aço, me esmagando pela frente. Daquela precisão absurda dos últimos trinta e quatro minutos, as falas curtas, o controle impecável, não sobrou nada. A mão dele voltou para o meu cabelo e, dessa vez, puxou. Eu deixei minha cabeça cair para trás. Bangkok girou de ponta-cabeça no canto do meu olho, trinta e oito andares de luz derramada, e, por um segundo, eu já não sabia se era o parapeito ou ele que me mantinha de pé.
Ele mordeu o meu lábio inferior. Devagar. Como quem marca território.
Quando nos separamos, era ele quem estava sem ar.
Eu ainda estava com os braços no pescoço dele. Ele ainda segurava meu cabelo. Nenhum de nós recuou.
Bangkok continuava queimando lá embaixo, indiferente a nós.
Eu não perguntei o que ele tinha planejado para o resto da noite. Mas, fosse o que fosse, eu tinha acabado de arruinar tudo.
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